quinta-feira, 29 de maio de 2014

ESTRADA PERDIDA - ANA HOMERICH

            No mesmo dia em que eu e minhas amigas tínhamos ido ao cinema, um dia comum se for pensar, achei engraçado. O filme falava de umas maldiçoes. Não acredito em maldições. Meus pais sempre falam, tenha fé, apenas fé será o seu escudo para tudo neste enorme mundo. Voltando do cinema com minhas amigas, era por volta de 21h30, já estava escuro, não vi direito, sabia apenas que lá não tinha visto aquilo antes.
No dia seguinte, levantei o mais rápido possível, tentando descobrir o que era aquilo no meio do nada, havia passado lá por minha vida toda, nesses 13 anos, passei todos os dias lá, pensando bem, sabia todos os cantos possíveis do local. Eu estava bem onde tinha visto uma estrada que levava para um portão enorme, não sabia onde levaria, e precisava descobrir. O único problema era que ela não estava mais lá. Havia literalmente sumido, desapareceu. Por um momento pensei “ já era noite, eu estava muito cansada, devo ter imaginado”. Pensei mais um pouco, mas não era lógico.
Voltei para casa. No dia seguinte, acordei, me arrumei e fui até o ponto de ônibus mais perto de minha casa, era longe. Passava pelo mesmo lugar em que tinha ‘’imaginado’’ uma estrada, continuava vazio, sem nada, apenas alguns canteiros de tulipas, tulipas pequenas e grandes, lindas, um belo e imenso canteiro de tulipas, amo passar a tarde lá e tomar um sorvete de mamão, mamão é meu favorito; amo também ir com o meu amigo, ficar trocando ideias sobre nossa banda favorita. Chegando ao ponto de ônibus, vi uma senhora, sentada no chão, revirando uma bolsa de cetim, marrom claro puxando para caramelo, gostei da bolsa, perguntei para ela: “Olá senhora, posso ajudar? Quer minha ajuda?” Ela ignorou, se levantou e entrou no ônibus. Segui meu caminho para a escola, ao chegar na escola, todos me ignoraram como se eu não existisse. Olhei para dentro de minha sala, minha mesa nem estava lá, o professor fechou a porta e me deixou para fora, estranhei.
Voltei para minha casa e fiz tudo que tinha que fazer naquele dia. À noite, sem duvidas, esperei dar 21h e fui correndo para o canteiro com uma lanterna, uma bolsa com comida e água, e um lençol, caso precisasse me deitar e esperar. Sentei no gramado antes da avenida para descansar, eu já tinha andado por volta de 20 quadras em 5 minutos, corri muito, ouvia música. Estava usando uma calça jeans e uma blusa de lã, estava muito frio nesse dia, ouvia música no mais alto possível para ver se alguém me ouvia, se me ignoraram, eu deveria não aparecer nem nada do gênero, deveria estar “invisível”.
Finalmente, faltando 10 minutos para as 21h30, sentei-me e esperei olhando por um espelho, pois queria ver as estrelas, uma ideia que meu amigo me deu para ver dois ângulos, lembro-me dele, enquanto ele estava no mesmo mundo que eu. Deus esta cuidando bem do meu amigo, “AMIGOS PARA SEMPRE, NO MESMO MUNDO OU EM OUTRO, SEMPRE AMIGOS” era nosso lema. Infelizmente ele faleceu há uma semana, em um acidente, um terrível acidente, uma coisa tola, besta... “Não deixe o transito mudar seu destino!!!!” Ele é meu melhor amigo. É e sempre será, para toda eternidade!
Virei para traz e vi, um minuto antes do horário, aquela estrada, guardei minhas coisas e corri, tirei um grampo de meu cabelo, soltei meu cabelo, com o vento, ele balançava, e caia leves flores pequenas nele, e prendiam-se nos cachos. Abri o enorme portão, e era tudo preto, mesas pretas; camas pretas com colchas pretas e travesseiros pretos; tulipas pretas; cadernos com folhas pretas, preenchidos com caneta de tinta preta; era literalmente um mundo negro. Logo notei, estava sozinha, o que mudaria se eu gritasse ou não? Gritei o mais alto que pude “BRANCO, EU QUERO PAZ, QUERO MEU AMIGO, QUERO BRANCO, PRETO NÃO, BRANCO, BRANCO, ME LEVE PARA O MUNDO DO BRANCO, MUNDO DA PAZ”.
E foi isso o que aconteceu, abri os olhos e era tudo branco, um branco agradável, podia ver que tinha luz, era um branco azulado, o mundo mais lindo de todos, tulipas azuis, azuis como os olhos de meu amigo. Falei para mim, baixinho, “perfeito, está quase perfeito, queria que meu amigo visse o que estou vendo agora.” Sentei no chão, tirei os calçados, uma sapatilha vermelha, chorei, chorei por tudo, por saber que nunca mais iria lá novamente, chorei por não ver meu amigo, chorei por tudo. Levantei e fui forte. Virei e vi  que tudo ficou perfeito, vi meu amigo, não era nenhuma ilusão, era ele. Corri e pulei nele, gritei: “Rafael, Rafael está vivo neste mundo, quero assim, ele no meu mundo, não, melhor, eu neste, olhei e senti a perfeição”.  Abracei-o o mais forte que pude, não um abraço “robótico”, era um abraço verdadeiro, nunca me senti tão feliz, amei sentir o que senti naquele momento, ele simplesmente me olhou no fundo dos meus olhos e disse: “Olivia, este é meu mundo, o mundo da paz e da fé, continue sendo você, quando seu dia chegar, você vivera aqui também e seremos eternamente amigos”. Eu sorri e disse: “Estarei aqui, um dia, hoje, ou amanhã, te prometo, ficarei neste mundo um dia”.
Virei, peguei minhas coisas e sai, ele gritou: “Olivia, EU TE AMO”, eu gritei também: “Rafael, EU TE AMO, MUITO, “AMIGO”, ele me disse: “Amiga.’’ Sai daquele mundo sorrindo, amava-o. Quero passar a eternidade com ele!
Voltei para casa, peguei uma garrafa de vidro de refrigerante, taquei no chão, peguei o maior caco de vidro, olhei; peguei uma blusa, enrolei, segurei forte, engoli o caco de vidro, senti a pior sensação do mundo. Quando estava soltando a blusa, notei, foi a melhor. “Amigos” para sempre. Agora, de novo no mesmo mundo

Texto de Ana Homerich, aluna do 6º A.

Nenhum comentário:

Postar um comentário