Segunda-Feira
Primeiro dia de aula. Eu era como todos: tinha
dinheiro, roupas limpas, e talvez o mais importante: eu era branco.
Todos me respeitaram quando eu entrei na escola.
Me trataram como um rei. Me valorizaram, por todas as riquezas que eu tinha.
Não apenas as materiais, mas as culturais também.
Nesse dia, eu fui o que mais se saiu bem. Sabia responder a todas as perguntas que faziam, e ainda
dava uma complementação bônus.
Depois de a aula acabar, voltei de carro para casa,
um último modelo. Minha casa? Uma mansão.
Ao entrarmos, nós já podíamos sentir o cheiro da
comida. Um banquete farto. Comíamos até dizer chega.
Depois do almoço, fui para meu quarto. Uma cama de
rei. Tinha tudo o que eu queria: livros, filmes, brinquedos, roupas...
O tempo passava rápido em minha casa. Tínhamos
sempre algo para fazer.
Logo era a hora do jantar. A mesma fartura de
sempre. Um banquete, repleto de comidas de alta classe.
Quando terminamos de comer, fomos todos para a sala
de debates, para conversar a respeito da bolsa de valores, política e coisas
democráticas.
Quando acabamos o debate, meus pais me colocaram na
cama e foram se deitar também.
Agora estou deitado, terminando de escrever meu
primeiro dia. E já está tarde, então vou dormir, pois amanhã cedo, tenho aula.
Brasil
Terça-Feira
Não tinha roupas limpas para vestir hoje.
Quando cheguei na escola, todos me olharam torto.
Me desprezaram.
Eu podia escutar alguns murmurando coisas como “Que
garoto desprezível!”; “Que garoto mais mal vestido, garanto que não tem cultura
nenhuma!”.
Fiquei muito chateado quando ouvi isso dos meus
colegas. Um dia me tratam muito bem, no outro me tratam feito lixo. Quem seria
capaz de fazer isso?
Como eu estava muito abalado, mal consegui prestar
atenção nas aulas. Não consegui responder às perguntas que os professores
faziam.
Até eles me desprezavam.
Quando cheguei em casa, não tinha fome. Vim direto
para o meu quarto.
Deitei na cama para tentar descansar e acabei
pegando no sono.
Agora são três da manhã e estou sem sono. Estou
escrevendo neste diário para ver se consigo desabafar um pouco.
Vou tentar dormir agora. Espero que a manhã de hoje
não seja tão ruim assim.
Brasil
Quarta-Feira
Não fui para a escola hoje porque não consegui
dormir direito. Tive de ajudar as empregadas na cozinha e na limpeza da casa.
Na hora do almoço, comi junto com elas. Um pratinho
pequeno com arroz, feijão e um bife duro.
Durante a tarde, fiquei fazendo meus deveres da
escola. Tive de pedir auxílio na maioria das vezes, pois não me lembrava como
se faziam as contas de matemática ou como se escreviam algumas palavras.
À noite, durante o jantar, também tive de comer com
as empregadas. Arroz, feijão e um bife duro.
Fui até meu quarto para me banhar, mas havia
acabado a água. Também notei que minhas coisas não estavam mais lá.
Olhei para minha pele: estava marrom de sujeira.
Mas o mais importante não era isso. Onde eu
dormiria?
Agora estou sentado no chão frio, escorado na
parede, onde costumava estar minha cama.
O que eu faço agora?
Brasil
Quinta-Feira
As empregadas não faziam mais seu serviço. Meus
pais simplesmente sumiram e o homem que cuidava de mim passou a me agredir.
Não tomei café, não almocei.
Durante a tarde, dois homens com aparência de
traficantes vieram até minha casa.
O senhor que cuidava de mim pôs uma fita em minha
boca e me deu uma pancada no rosto, e me lembro de ter caído no chão.
Devo ter desmaiado, pois não me lembro de nada
depois disso.
Então acordei aqui, nesta favela, com várias
pessoas (aparentemente muito pobres) me olhando, me cercando.
Não sabia o que elas queriam, então apenas me
levantei e saí andando pela escuridão da noite.
Em pouco tempo, me deparei com uma floresta, então
resolvi parar por ali e “acampar”.
O que será de mim agora?
Brasil
Sexta-Feira
Acordei com a luz do sol batendo no meu rosto. De
acordo com o meu pouco conhecimento em relação à referência a partir da luz
solar, deviam ser quase três da tarde.
Olhei em volta. Por sorte, havia macieiras e
outras árvores frutíferas ali.
Procurei pegar o máximo de comida que podia
carregar.
Resolvi caminhar mais um pouco, em volta da
floresta, para ver se encontrava um bom lugar para ficar.
Havia uma espécie de caverna ali perto. Parecia ser
um bom lugar, pelo menos para uma noite.
Deixei a comida lá dentro e fui buscar feno, para
tentar improvisar uma cama e para ter algo para me cobrir.
Quando voltei à caverna, dei um jeito de arrumar o
meu cantinho, da maneira mais confortável possível.
Agora, estou deitado nesse chão duro, com uma
fogueira feita com o resto do feno e alguns galhos quebrados que encontrei
durante a tarde.
Acho que meu fim se aproxima...
Brasil
Sábado
Acordei com um homem gritando perto de mim. Não
havia só ele. Tinha algumas mulheres e alguns garotos junto.
Todos me chamavam de “Wellington”.
Eu pensava que todos haviam me confundido com algum
outro garoto, mas mesmo depois de eu dizer meu verdadeiro nome, eles
continuavam me chamando por aquele nome que eu nunca ouvira antes.
Alguns deles me bateram e me obrigaram a realizar
trabalhos pesados.
Eu ainda não havia comido nem bebido nada. Nenhuma
fruta, nenhum docinho. Nada.
Eles me levaram de volta à favela. Acho que haviam
me encontrado ali naquela caverna por causa da fogueira que eu havia feito para
me esquentar.
Já era tarde quando recebi meu prato de comida.
Arroz, feijão, carne, tomates, alface e ovos cozidos, acompanhados por um copo
de leite morno.
Eu até estranhei no começo, mas a moça que veio me
servir me assegurou de que era comida boa.
Agora estou aqui, deitado no chão de terra batida
de uma casinha pobre, pensando como deverá ser o meu dia amanhã.
Será que vou voltar a ver meus pais? Será que vou
voltar a ter uma boa vida?
Wellington
Domingo
Acordei com o barulho de tiros. Havia pelo menos
sete mulheres junto comigo, todas na minha frente.
Estávamos trancados em um quarto, nos fundos da
casa.
Pudemos ouvir o barulho de alguém chutando a porta.
Haviam cinco homens, e um deles, o que ia na
frente, sempre repetia “Procurem o garoto!”.
Para que eles me queriam?
Após alguns minutos eu soube: era para me matar.
Me pegaram pelos braços e me arrastaram até um
lugar mais isolado. Me deram três tiros: um na coxa direita, um do lado
esquerdo da barriga e um no ombro esquerdo.
Acho que já se passaram cerca de trinta minutos.
Estou sangrando até agora.
A cultura morre, a inocência, a riqueza pessoal.
O Brasil verdadeiro se vai...
Wellington
Texto enviado pela aluna Júla Fadanelli, do 8º B.
Show!
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